Ultimamente, várias pessoas estão falando sobre o tal do “cashback”.
Elas falam que o cashback é uma excelente forma de “economizar dinheiro gastando dinheiro” Mas será mesmo? Será que o cashback é realmente bom ou é apenas uma tática dos bancos para fazer você gastar mais? É isso que vamos ver.
Onde Tudo Começou
Em 1986, a rede americana de lojas de departamentos Sears decidiu oferecer um cartão de crédito. A Sears era a maior varejista dos Estados Unidos, mas mesmo assim estava com dificuldades de roubar clientes dos grandes bancos. Então, para roubar esses clientes, ela criou um programa de fidelidade inovador - o cashback. A ideia era bem simples: ao gastar R$100 usando o cartão Sears, você recebia R$2 de volta. No fundo, esse programa era um modelo simplificado do esquema de milhas. A única diferença é que em vez de ganhar passagens aéreas, a recompensa era em dinheiro. Esse sistema de cashback deu tão certo que, em pouco tempo, se espalhou por todo Estados Unidos.
Meu Brasil
Trinta anos depois da Sears, o cashback virou padrão aqui no Brasil. Agora, vários youtubers de finanças estão falando sobre ele, inclusive, a Nathalia Arcuri, a dona do Canal “Me Poupe”. A Nathalia está falando sobre o cashback, porque vários bancos digitais abraçaram a ferramenta e a promoveram de maneira vigorosa, como, por exemplo, o Nubank.
Esses bancos digitais promoveram o cashback dessa forma, porque o hype dos cartões de crédito sem anuidade acabou. Com isso, ficou claro que para conseguir novos clientes, seria necessário a criação de programas de recompensas. E foi exatamente isso que os bancos fizeram.
A XP, por exemplo, lançou o invest-back, que devolve 1% do valor gasto em um fundo que rende a Selic e que pode ser resgatado a qualquer momento. Já o Nubank lançou o cartão Ultravioleta, que também devolve 1% dos gastos, mas em uma conta que rende o dobro da Selic.
Chovendo Grana
É claro, toda essa história não se trata de dinheiro caindo do céu. A grana do cashback vem de dentro da velha estrutura da indústria do cartão de crédito. Essa indústria é composta por três pilares:
O primeiro pilar é o banco que emite o cartão;O segundo, são as maquininhas;
E o terceiro, as bandeiras.
Todos esses pilares têm sua importância, mas o mais importante é o das bandeiras, porque são elas que dizem o quanto os bancos vão ganhar toda vez que você passar o seu cartão na maquininha.
No caso do cartão XP, por exemplo, a taxa que o banco ganha para compras à vista no crédito é de 1,83%. E é aqui que a engrenagem começa a girar: Se a cada compra sua usando o cartão de crédito dá 1,83% para a XP e ela devolve 1%, ela lucra 0,83%. No caso do Nubank e do Inter, a taxa que eles cobram é 2,1%. Ou seja, a cada compra sua, 1,1% fica com eles e 1% com você.
Jogo de Soma Não-Zero
Essa brincadeira de devolver 1% de cashback é aquilo que John Nash chamaria de “jogo de soma não zero” - que é uma situação no qual os dois lados ganham - você e o emissor do cartão. É por causa disso que os bancos digitais desapegam tão facilmente do conceito de anuidade - que é uma taxa que não tem a menor condição de sobreviver num mercado competitivo.
Mas lembre-se: não existe almoço grátis. A regra para se livrar da anuidade costuma ser a de um gasto mínimo por mês. Por exemplo, o Nubank exige R$5.000 de fatura mensal. Quem gastar menos, tem que pagar a mensalidade de R$49. Na prática, se você gastar R$5.000 todo mês usando o cartão ultravioleta, isso vai lhe render R$600 ao final de um ano e vai render para a instituição financeira R$660.
Além do Banco
Enquanto os bancos digitais estão tentando popularizar o cashback, há um outro tipo de sistema de recompensas que está se estabelecendo no mercado: São os sites que te dão dinheiro de volta não porque você usou o seu cartão, mas porque você fez uma compra. Um desses sites é o Méliuz.
Graças a esse modelo de negócios, o Méliuz se tornou um gigante e, em novembro de 2020, fez IPO na B3, sendo avaliado em R$1,15 bilhão. Desde seu IPO até o pico de julho, as ações chegaram a valorizar 640% e, em setembro de 2021, a empresa entrou para o Ibovespa. Apesar disso, o Méliuz terminou o ano de 2021 com um prejuízo de R$34,3 milhões, mesmo dobrando a quantidade de usuários.
Truques Mentais
No fundo, no fundo, cashback nada mais é do que a junção de duas coisas bem conhecidas no varejo e no setor financeiro: descontos e programas de fidelidade.
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Créditos:
Música de fundo: https://artlist.io/
Música Final: come inside of my heart" by iv of spades - a jikamarie cover
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Inscreva-se - 00:00
Onde Tudo Começou - 00:54
Meu Brasil - 01:47
Chovendo Grana - 03:11
Jogo de Soma Não-Zero - 04:16
Além do Banco - 05:27
Truques Mentais - 07:11
Me Engana Que Gosto - 08:53
Créditos - 09:57
Copyright © Efeito Expresso 2023
Cashback: O Famoso Me Engana Que Eu Gosto - YouTube
https://www.youtube.com/watch?v=ByVIO-oDLm4
Transcript:
(00:01) Ultimamente, várias pessoas estão falando sobre o tal do “cashback”. Elas falam que o cashback é uma excelente forma de “economizar dinheiro gastando dinheiro”. Mas será mesmo? Será que o cashback é realmente bom ou é apenas uma tática dos bancos para fazer você gastar mais? É isso que vamos ver. Em 1986, a rede americana de lojas de departamentos Sears decidiu oferecer um cartão de crédito.
(01:04) A Sears era a maior varejista dos Estados Unidos, mas mesmo assim estava com dificuldades de roubar clientes dos grandes bancos. Então, para roubar esses clientes, ela criou um programa de fidelidade inovador - o cashback. A ideia era bem simples: ao gastar R$100 usando o cartão Sears, você recebia R$2 de volta.
(01:29) No fundo, esse programa era um modelo simplificado do esquema de milhas. A única diferença é que em vez de ganhar passagens aéreas, a recompensa era em dinheiro. Esse sistema de cashback deu tão certo que, em pouco tempo, se espalhou por todo Estados Unidos. Trinta anos depois da Sears, o cashback virou padrão aqui no Brasil.
(01:54) Agora, vários youtubers de finanças estão falando sobre ele, inclusive, a Nathalia Arcuri, a dona do Canal “Me Poupe”. A Nathalia está falando sobre o cashback, porque vários bancos digitais abraçaram a ferramenta e a promoveram de maneira vigorosa, como, por exemplo, o Nubank. Esses bancos digitais promoveram o cashback dessa forma, porque o hype dos cartões de crédito sem anuidade acabou.
(02:44) Com isso, ficou claro que para conseguir novos clientes, seria necessário a criação de programas de recompensas. E foi exatamente isso que os bancos fizeram. A XP, por exemplo, lançou o invest-back, que devolve 1% do valor gasto em um fundo que rende a Selic e que pode ser resgatado a qualquer momento. Já o Nubank lançou o cartão Ultravioleta, que também devolve 1% dos gastos, mas em uma conta que rende o dobro da Selic.
(03:09) É claro, toda essa história não se trata de dinheiro caindo do céu. A grana do cashback vem de dentro da velha estrutura da indústria do cartão de crédito. Essa indústria é composta por três pilares: O primeiro pilar é o banco que emite o cartão; O segundo, são as maquininhas; E o terceiro, as bandeiras.
(03:35) Todos esses pilares têm sua importância, mas o mais importante é o das bandeiras, porque são elas que dizem o quanto os bancos vão ganhar toda vez que você passar o seu cartão na maquininha. No caso do cartão XP, por exemplo, a taxa que o banco ganha para compras à vista no crédito é de 1,83%. E é aqui que a engrenagem começa a girar: Se a cada compra sua usando o cartão de crédito dá 1,83% para a XP e ela devolve 1%, ela lucra 0,83%.
(04:06) No caso do Nubank e do Inter, a taxa que eles cobram é 2,1%. Ou seja, a cada compra sua, 1,1% fica com eles e 1% com você. Essa brincadeira de devolver 1% de cashback é aquilo que John Nash chamaria de “jogo de soma não zero” - que é uma situação no qual os dois lados ganham - você e o emissor do cartão.
(04:31) É por causa disso que os bancos digitais desapegam tão facilmente do conceito de anuidade - que é uma taxa que não tem a menor condição de sobreviver num mercado competitivo. Mas lembre-se: não existe almoço grátis. A regra para se livrar da anuidade costuma ser a de um gasto mínimo por mês. Por exemplo, o Nubank exige R$5.000 de fatura mensal.
(04:52) Quem gastar menos, tem que pagar a mensalidade de R$49. Na prática, se você gastar R$5.000 todo mês usando o cartão ultravioleta, isso vai lhe render R$600 ao final de um ano e vai render para a instituição financeira R$660. Enquanto os bancos digitais estão tentando popularizar o cashback, há um outro tipo de sistema de recompensas que está se estabelecendo no mercado: São os sites que te dão dinheiro de volta não porque você usou o seu cartão, mas porque você fez uma compra.
(05:43) Um desses sites é o Méliuz. Graças a esse modelo de negócios, o Méliuz se tornou um gigante e, em novembro de 2020, fez IPO na B3, sendo avaliado em R$1,15 bilhão.
(06:52) Desde seu IPO até o pico de julho, as ações chegaram a valorizar 640% e, em setembro de 2021, a empresa entrou para o Ibovespa. Apesar disso, o Méliuz terminou o ano de 2021 com um prejuízo de R$34,3 milhões, mesmo dobrando a quantidade de usuários. No fundo, no fundo, cashback nada mais é do que a junção de duas coisas bem conhecidas no varejo e no setor financeiro: descontos e programas de fidelidade.
(07:23) Eu não sei se você sabe, mas juntos, os descontos e os programas são irresistíveis - e o motivo está no seu cérebro. Primeiro, vamos falar sobre os descontos. Pagar R$100 num produto e receber R$5 de volta é a mesma coisa que pagar R$95 no mesmo produto, só que anunciado com 5% de desconto, certo? Bem, tecnicamente, sim, mas, na prática, não.
(07:54) Estudos de economia comportamental já demonstraram que o ser humano não é nada racional na hora de fazer compras. No artigo “Why Consumers Can’t Count Their Money Correctly”, a psicóloga Priya Raghubir, concluiu que o cashback tira nossa atenção do dinheiro que está sendo gasto. O foco vai para o dinheiro que está sendo recebido.
(08:14) E isso faz sentido. Gastar envolve uma dor de separação e uma política de desconto apenas alivia essa dor, mas o sentimento geral é o mesmo: é o de dinheiro indo embora. Já uma recompensa no formato de cashback faz com que a experiência de gastar dinheiro seja mais positiva, ainda que no fim o resultado seja exatamente o mesmo.
(08:34) Uma pesquisa da consultoria Aberdeen confirmou isso: Entre os mais de 200 varejistas analisados, os que apostaram em políticas de descontos viram sua receita subir 28%. Já as lojas que usavam cashback tiveram um salto ainda maior: 36%. As promoções e os cashbacks têm um objetivo bem claro: fidelizar os clientes.
(08:59) Esse conceito existe há quase dois séculos, quando os varejistas ofereciam selos para os clientes fiéis, que se convertiam em brindes. O cashback é uma evolução dessa ideia, trazendo várias vantagens. Uma das principais vantagens é a rapidez; a maioria dos programas devolve o dinheiro quase que imediatamente.
(09:18) Além disso, há uma sensação de liberdade para o cliente, já que o “dinheiro de volta” pode ser utilizado em qualquer produto ou até mesmo em uma outra loja. No entanto, é importante lembrar que o “cashback” nada mais é do que uma estratégia para fidelizar clientes, ou seja, é uma estratégia para fazer você gastar mais dinheiro.
(09:38) Então, avalie cuidadosamente antes de comprar qualquer coisa, pois assim você evitará gastos desnecessários. E só um último recado: não caia na ilusão de que está ganhando dinheiro com isso, pois você não está.
