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130 | NOSSO LAR CAP49 - PARTE 1 - REGRESSANDO À CASA | HAROLDO DUTRA DIAS

 Curiosidades

Este é um estudo sequencial sobre a grande obra psicografada por Chico Xavier.

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49
Regressando à Casa

Imitando a criança que se conduz pelos passos dos benfeitores,
cheguei à minha cidade, com a sensação indescritível do
viajante que torna ao berço natal depois de longa ausência.
Sim, a paisagem não se modificara de maneira sensível. As
velhas árvores do bairro, o mar, o mesmo céu, o mesmo perfume
errante. Embriagado de alegria, não mais notei a expressão fisionômica
da senhora Laura, que denunciava extrema preocupação, e
despedi-me da pequena caravana, que seguiria adiante.
Clarêncio abraçou-me e falou:
– Você tem uma semana ao seu dispor. Passarei aqui diariamente
para revê-lo, atento aos cuidados que devo consagrar aos
problemas da reencarnação de nossa irmã. Se quiser ir a "Nosso
Lar", aproveitará minha companhia. Passe bem, André!
Último adeus à dedicada mãe de Lísias e me vi só, respirando
o ar de outros tempos, a longos haustos.
Não me demorei a examinar pormenores. Atravessei celeremente
algumas ruas, a caminho de casa. O coração me batia descompassado,
à medida que me aproximava do grande portão de
entrada. O vento, como outrora, sussurrava carícias no arvoredo
do pequeno parque. Desabrochavam azáleas e rosas, saudando a
luz primaveril. Em frente ao pórtico, ostentava-se, garbosa, a
palmeira que, com Zélia, eu havia plantado no primeiro aniversário
de casamento.
Ébrio de felicidade, avancei para o interior. Tudo, porém, denotava
diferenças enormes. Onde estariam os velhos móveis de
jacarandá? E o grande retrato onde, com a esposa e os filhinhos,
formávamos gracioso grupo? Alguma coisa me oprimia ansiosamente. Que teria acontecido? Comecei a cambalear de emoção.
Dirigi-me à sala de jantar, onde vi a filhinha mais nova, transformada
em jovem casadoura. E, quase no mesmo instante, vi Zélia
que saía do quarto, acompanhando um cavalheiro que me pareceu
médico, à primeira vista.
Gritei minha alegria com toda a força dos pulmões, mas as
palavras pareciam reboar pela casa sem atingir os ouvidos dos
circunstantes. Compreendi a situação e calei-me, desapontado.
Abracei-me à companheira, com o carinho da minha saudade
imensa, mas Zélia parecia totalmente insensível ao meu gesto de
amor. Muito atenta, perguntou ao cavalheiro alguma coisa que
não pude compreender de pronto. O interlocutor, baixando a voz,
respondeu, respeitoso:
– Só amanhã poderei diagnosticar seguramente, porque a
pneumonia se apresenta muito complicada, em virtude da hipertensão.
Todo o cuidado é pouco, o Dr. Ernesto reclama absoluto
repouso.
Quem seria aquele Dr. Ernesto? Perdia-me num mar de indagações,
quando ouvi minha esposa suplicar, ansiosa:
– Mas, doutor, salve-o, por caridade! Peço-lhe! Oh! não suportaria
uma segunda viuvez.
Zélia chorava e torcia as mãos, demonstrando imensa angústia.
Um corisco não me fulminaria com tamanha violência. Outro
homem se apossara do meu lar. A esposa me esquecera. A casa
não mais me pertencia. Valia a pena de ter esperado tanto para
colher semelhantes desilusões? Corri ao meu quarto, verificando
que outro mobiliário existia na alcova espaçosa. No leito, estava
um homem de idade madura, evidenciando melindroso estado de
saúde. Ao lado dele, três figuras negras iam e vinham, mostrandose
interessadas em lhe agravar os padecimentos.
De pronto, tive ímpetos de odiar o intruso com todas as forças,
mas já não era eu o mesmo homem de outros tempos. O
Senhor me havia chamado aos ensinamentos do amor, da fraternidade
e do perdão. Verifiquei que o doente estava cercado de
entidades inferiores, devotadas ao mal; entretanto, não consegui
auxiliá-lo imediatamente.
Assentei-me, decepcionado e acabrunhado, vendo Zélia entrar
no aposento e dele sair, várias vezes, acariciando o enfermo com a
ternura que me coubera noutros tempos, e, depois de algumas
horas de amarga observação e meditação, voltei, cambaleante, à
sala de jantar, onde encontrei as filhas conversando. Sucediam-se
as surpresas. A mais velha casara-se e tinha ao colo o filhinho. E
meu filho? Onde estaria ele?

Continua…

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Categoria: Curiosidades

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